Um passeio no jardim da vingança, Daniel Nonohay

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Um passeio no jardim da vingança, Daniel Nonohay

O livro de Nonohay deixa uma coisa bem clara pra quem lê:

todo mundo tem uma história por trás de suas ações.

O enredo se passa dentro dos pensamentos de Ramiro na maior parte do tempo: advogado, sofre um atentado no tribunal e, depois de um longo tempo de recuperação, resolve voltar ao trabalho definitivamente – enquanto sócio, queria retomar sua importância no escritório depois de anos de “negligência”. Ao comunicar aos colegas de sua decisão, Ramiro descobre que não é bem vindo por ali e faz da sua vida uma saga em busca do troco por ter sido rejeitado.

É aí que a trama prende a gente. Por acaso, Ramiro descobre estar envolvido em um cenário muito pior do que imaginava e se vê no centro de uma perigosa descoberta. O mais interessante são suas indagações a respeito do que fazer com as informações que pularam no seu colo sem querer. Bom, a virada do livro é bastante instigante, já que com a descoberta dos sócios de sua descoberta (!), Ramiro não tem mais opção que não seja fugir.

A trama se desenrola com o envolvimento de vários personagens. Casada com Ramiro, Amanda é procurada para ajudar na busca do marido, a quem ela sente ódio por ter sido traída por muito tempo. Como “vingança”, a moça já se envolveu sexualmente com todos os sócios do escritório. É usada como isca e, principalmente, como chantagem para garantir a volta de Ramiro.

Rogério, amigo e sócio de Ramiro, é o único disposto a ajudar e, por isso, sofre retaliações do grupo. O clímax do livro – na minha opinião – está nos diálogos de Rogério com o pastor de uma Igreja que garante aos fieis uma vida paralela através de máquinas. Os diálogos são super interessantes e fazem com que a gente vá longe, uma vez que a “outra” vida pode ser boa ou ruim, conforme o comportamento de quem vive. Ora, o inferno ou paraíso, não?! Rogério de envolve com o pastor para união de forças, mas o final dessa aliança é bastante reveladora. Confesso que fiquei muito curiosa pelas atividades e ideologia desta Igreja: me deixou com gostinho de quero mais.

No meio disso tudo, as emoções dos personagens são como montanha russa e fazem, sem dúvida, a gente ter vontade de chegar logo no final. No fundo, acho que a lição é que: todos são, de alguma maneira, “farinha do mesmo saco”. Todo mundo pode ser relativizado e têm uma história por trás do que é. Vilões e mocinhos não existem. Acho que, com todos os personagens, me vi cantando Paralamas as avessas: “às vezes te amo por quase um segundo, depois te odeio mais”. É um excelente exercício de realidade e uma sensibilidade pontual sobre como somos tantas coisas ao mesmo tempo.

O enredo é instigante e é daqueles que fazem a gente correr na leitura pra chegar no final. É uma história de perseguição de vai-e-volta que garante muitos (!) suspiros.

Dito isso, só uma coisinha me incomodou: a única personagem feminina do enredo (a esposa – Amanda) é vista em excesso (na minha opinião) como um objeto. Ainda que ela protagonize uma cena de vingança bastante importante no enredo, ela é excessivamente inferiorizada, por vezes sem necessidade. A cena em que ela é humilhada frente ao marido por um dos rapazes do escritório é bastante violenta e, na minha opinião, desnecessária. Como mulher, isso me incomodou algumas vezes durante a leitura. É evidente que “faz parte” da caracterização do meio em que ela vive, mas por vezes achei desnecessário e mascara um pouco a beleza da leitura.

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